A Minha Cidadania Italiana | Fabio Barbiero

Província de Pistoia, 24 de dezembro de 2007 – 10:38 da manhã

Saio de casa rumo ao comune. Faz frio. Provavelmente 2 graus e um vento gelado pra piorar. Mas estou bem aquecido, com o coração acelerado, afinal estou indo perguntar se meus documentos foram transcritos e se já posso ser considerado “cidadão italiano” de verdade…

Cumprimento todos que eu encontro pelo caminho, afinal quem sabe um dia não me candidato a prefeito da cidade.

Faltam dois quarteirões pra chegar no comune. Daqui já consigo ver a torre da igreja a direita e a esquerda vejo o hospital. Quanto mais próximo, mais a ansiedade aumenta. Afinal são 6 meses e 11 dias desde que desembarquei em Milano no dia 13 de junho num calor insuportável…

Depois de várias barreiras, diversos obstáculos, perseguições pessoais (sim, elas existiram) e outras dificuldades passadas tudo parece um sonho. Quantas noites sem dormir, quantas làgrimas caidas por causa da saudade dos meus amores. E agora eu, a dois quarteirões do fim da Minha Saga.

Minhas mãos estão congelando. Cavolo, porque não trouxe as luvas? Passo pela posta e já vejo o prédio do comune. Meu coração parece que vai parar. O que vou falar? Começo a treinar meu diálogo com o oficial: – Ciao amigão, tudo bem? Você já transcreveu meus documentos?

Não, pensei. Muito direto. O cara pode me mandar “a quel paese”. Melhor falar diferente: – Ciao oficial, bom dia! Olha só, você podia me dar uma cópia do meu certificado de matrimonio pra que eu possa enviar pra minha esposa no Brasil? Hummm, também não vai colar.

Ahhhh, quer saber? Vou entregar pra Dio, quando eu chegar lá eu abro a boca e vamos ver o que acontece…

Nossa, sem perceber já cheguei. To parado que nem um besta na frente do comune. Faço o sinal da cruz e peço pra Deus que me acompanhe. Abro a porta e engulo meu coração que nessa hora parece querer saltar pela boca.

O setor de Stato Civile fica no fundo do corredor, ultima porta. Enquanto atravesso este corredor assisto o filme da Minha Saga. Diversos momentos vem à minha cabeça. Alguns tristes, mas a maioria felizes.

Me recordo dos amigos que fiz aqui, dos amigos que deixei no Brasil e os milhares de amigos que fiz “virtualmente” através do blog e das comunidades. A cada passo, me lembro das palavras de carinho e de apoio dos amigos.

Quando entro pela porta do stato civile, parece que cresci pelo menos uns vinte centímetros. Irradio energia positiva!

Mal entro na porta, o oficial me vê e já foi logo me cumprimenta: – Ciao Fabio, que bom que você veio, estava pra te ligar. Seus documentos estão todos transcritos, porem só tenho uma duvida aqui no nome da sua esposa. Confirma pra mim: è Ednea mesmo, né?

Eu devo ter balbuciado alguma coisa que não consigo me lembrar, só lembro dele agradecendo, digitando alguma coisa no computador e depois falando:

– Muito bem, agora o matrimonio também esta transcrito, deixe-me ver se não esqueci nada: comunicação a Questura, ao Ministero e a Roma já tinha feito, nascita e matrimonio ok, allora, não falta mais nada…

Eu ainda estava em estado de choque, que ele deve ter percebido. Virou pra mim e disse: Escuta, você pretende trazer sua mulher e suas filhas quando?

Eu disse que daqui a uns 6 meses, pois precisava trabalhar bastante ainda, construir meu credito aqui, comprar uma casa, ter uma estabilidade financeira e só depois trazê-las.

Ele disse então que me daria o meu estratto de nascita e o certificato de matrimonio, e me lembrou que eu deveria já fazer meu passaporte, pois quando eu pensar em trazê-las seria bom eu ir pro Brasil buscá-las, assim elas não teriam problemas na imigração.

E que depois eu trouxesse também a certidão de nascimento das minhas filhas traduzidos e legalizados pra que ele transcrevesse também, assim elas também não teriam que se preocupar no futuro em vir pra Italia e fazer todo o processo novamente.

Dai o mais engraçado: Eu viro pra ele, ainda meio zonzo e pergunto:

– O tio, eu já posso fazer minha CI italiana lá com a anagrafe?

Ele: – Ué, pode não: deve! Você tem que solicitar a CI com cittadinanza italiana, e não esquece de já pedir o passaporte…

Eu agradeci, disse que traria um presente pra ele de Natal, ele quase me bateu, dizendo que não precisava, que não tinha feito mais do que o próprio trabalho e que sentia-se feliz de poder contribuir pra que eu estivesse logo novamente com minha família…

Depois dos afagos e de quase eu dar um beijo na boca dele, sai da sala e fui – tremendo dos pés a cabeça, obviamente – fazer minha CI com a anagrafe. Pedi a ela se eu poderia fazer a CI, ela disse que sim, servia 3 fotos, a CI antiga e o pagamento de € 5,42.

Como eu não tinha mais fotos, pois tinha usado as outras que havia feito, falei pra ela que iria fazer outras na maquina da estação e que voltaria em instantes…

Sai correndo e fui tirar as fotos. Nisso meus amigos estavam me esperando do lado de fora com as respectivas maquinas fotográficas.

Disse a eles pra esperarem pois tinha ainda que tirar as fotos. Saímos de la rumo a estação, eles querendo saber dos detalhes, do que tinha acontecido, como tinha sido e tal.

Fizemos as fotos e retornei ao comune. Olhei no celular: 12:12. Entreguei as fotos pra oficial e enquanto ela preenchia os papeis, perguntei se meu amigo poderia tirar uma foto minha assinando a Carta.

Ela olhou com uma cara de interrogação, mas consentiu. Então assinei a CI e os papeis, ela recortou as fotos, colou aqui, ali, acolá, grampeou as folhas, carimbou assinou e PIMBA! Me entregou a tal sonhada CI Italiana

Agradeci, desejei auguri a ela e toda a família, saímos de la e fomos correndo no supermercado, pois além dos vinhos que já tínhamos em casa, eu precisava comprar duas garrafas especiais. Rodei e encontrei o que eu queria: uma garrafa de vinho produzido no Veneto, em homenagem a cidade da minha família, Lozzo Atestino em Padova e outra garrafa de vinho produzido na Toscana, em homenagem ao lugar que me ofereceu a possibilidade de conseguir meu reconhecimento…

Chegamos em casa as 13:20 e já abrimos o vinho Toscano pra comemorar!!!!

lozzo atestino
Igreja em Lozzo Atestino onde meu antenato foi batizado

 

AGRADECIMENTOS

E claro que preciso claro agradecer as pessoas que foram determinantes na conclusão da Minha Saga – Parte II:

Meus queridos moderadores da comunidade que eu tinha o orkut:
  • Miga Martha
  • Nonna Maria
  • Alexandre
  • André

Minha família no Brasil:

  • Isabella
  • Brunna
  • Janete (sem ela eu sequer existiria)
  • Flavia Barbiero, minha sorella
  • Ednea, minha ex-esposa (que muito me ajudou também)
  • Junior Barbiero, meu fratello
  • Maria Soana, minha nonna
  • Briane Barbiero, meu nonno

Meus leitores, amigos e muitos clientes do blog

Não me atreverei a listá-los, pois com certeza serei injusto e esquecerei de alguém.

Amigos a quem recorri em momentos de desespero

Pepe e Lia – Minha família aqui na Italia!!! Me hospedaram por 10 dias em sua casa quando as coisas realmente ficaram pretas e foram fundamentais pra tudo isso acontecer.

E depois da festa geral, estou voltando a terra a primeira coisa que pensei: – Meu Deus, minha Saga é finita!!! E agora? O que fazer? Quais minhas possibilidades?

  • a) Fechar o blog, pois chegamos ao término da Minha Saga e preciso trabalhar e estudar por aqui, agora que sou cidadão italiano de fato!
  • b) Manter o blog, mas fechado para novos posts, para que seja usado como uma bíblia sobre cidadania italiana;
  • c) Manter o blog, mas também continuar narrando minhas experiências do dia-a-dia e quem sabe ajudando os amigos nas “Suas Sagas”.

Enfim, tenho pensado muito na vida e amanha a noite, assim que o relógio bater 00:01, inicia-se um novo ano, com novas expectativas, novas possibilidades e novos desafios…

Que venha um novo ano, cheio de realizações para todos nós!

Ps. Quem diria que esta história um dia viraria um livro – clique aqui para saber mais sobre os detalhes desta Saga 🙂