3 anos de Italia – Quanta história para contar

Ciao queridos amigos

Semana passada, eu fui com a Luciana até a sede da Motorizzazione Italiana (correspondente ao Detran), pois chegou o dia da sua prova prática para tirar a carteira de motorista italiana.

Enquanto esperava ela terminar a prova, fui caminhando pelas ruas, quando encontrei uma praça, me sentei num dos bancos e comecei a pensar na minha vida.

Foi quando me dei conta que já tinha estado nesta mesma praça 3 anos antes, durante a minha primeira (e rapidissima) passagem aqui na Italia, no início de 2007.

Alguns meses depois daquele fatídico dia, no dia 12 de junho eu deixava o Brasil definitivamente para vir buscar o tão sonhado reconhecimento da minha cidadania, e com isso proporcionar uma vida melhor pra mim, e para minhas filhas.

O que eu não tinha ideia era quanto melhor seria minha vida, depois de apenas três anos. Nem tinha ideia de como seria fácil minha adaptação por aqui.

Sentado nesta praça, vieram dezenas, centenas de lembranças desde que cheguei aqui. No desespero de colocar tudo no papel para poder compartilhar com vocês, saí em disparada a uma papelaria próxima e comprei um bloco de papel e uma caneta.

Quanta diferença de três anos atrás. Há quanto tempo eu não me sentava num banco de praça a observar as pessoas passando, as crianças brincando, os velhinhos caminhando, enfim o modo italiano de viver. Deitei-me por alguns instantes no banco da praça exatamente como fazia quando cheguei e imediatamente pude perceber como tutto è cambiato.

Hoje não tenho mais a minha velha mochila de guerra, que por tantas noites me serviu como travesseiro. Também não tenho mais a blusa e o touca modelo Chico César que chegaram aqui comigo.

Há alguns anos, eu doei todas as roupas antigas para a Càritas, órgão da igreja responsável pela distribuição de roupas e alimentos às pessoas carentes. Fiz isso em retribuição a própria Càritas que tanto me ajudou quando cheguei.

Olho no relógio: 15:18. Neste momento vem correndo em minha direção uma garotinha, parando e olhando para a fonte que ficava em frente do banco onde eu estou sentado. De repente, ela grita: – Mamãe, mamãe, venha ver quantas tartarugas! 

Tanto a mãe quanto eu fizemos a mesma cara de embasbacados, pois como era possível haver tartarugas nessa fonte mixuruca, que mais parece um esguicho d’água?

Chegamos perto e lá estavam elas! Haviam pelo menos umas cinco tartarugas nadando tranquilamente, alheias a tudo que acontecia do lado de fora do seu habitat.

Voltando aos meus pensamentos, nestes três anos, o que realmente mudou na minha vida?

Mudanças de vida

A LINGUA ITALIANA

A primeira grande mudança com certeza foi o conhecimento da lingua italiana! Hoje, embora ainda falte muito para falar tudo corretamente, como um cidadão alfabetizado na língua, falo com sotaque toscano e não tenho absolutamente nenhuma dificuldade em entender ou compreender o que quer que seja.

Me lembro que meu sonho quando cheguei era conseguir construir frases com algumas palavras que para mim pareciam palavrões, como por exemplo accidenti, comunque, dunque, addirittura, altrettanto.

Também sonhava em aprender o significado de expressões coloquiais usualmente faladas no dia-a-dia, que dificilmente aprende-se na escola.

Frases como in bocca al lupo, che me ne frega, ce l’abbiamo fatta, me ne sono accorto, che te devo di?, non me ne importa una sega e tantas outras que hoje saem naturalmente, algo que somente vivendo no país onde estas expressões são faladas, é possível aprendê-las naturalmente.

A VISÃO DE MUNDO

Outra coisa que mudou radicalmente foi minha visão de mundo. A ideia de civismo, o respeito ao espaço dos outros, o planejamento do público ao privado, as relações sociais, tudo isso ainda me deixa fascinado aqui na Italia.

Concordo com aqueles que criticam e dizem que a Italia não é um país perfeito, que existe ainda muito a melhorar. Mas qual país é?

A CIDADANIA ITALIANA

Quantos bancos, quantas praças, quantos trens e quantas estações foram testemunhas de histórias  divertidas, e outras nem tanto, na minha busca cidadania italiana.

Destes três anos aqui, vivi praticamente um deles buscando o meu reconhecimento, e os outros dois como cidadão italiano reconhecido.

Em dezembro de 2007 escrevi um post chamado Consegui minha cidadania, e agora?, que modéstia à parte, considero um dos mais importantes textos que escrevi. Importante porque lá eu descrevo que não basta ter a cidadania italiana se você não viver como um cidadão italiano, integrando-se a sociedade em que vive.

Sem esta integração, sem absorver a cultura, sem entender o funcionamento das coisas, você só tem um pedaço de papel moeda em mãos, que por acaso diz que você é cidadão italiano.

Mas não, a cidadania de um país é muito mais do que um pedaço de papel qualquer…

UM DOS POUCOS CONSELHOS SÁBIOS QUE RECEBI DO MEU PAI

Infelizmente meu pai abandonou a nossa família quando eu tinha cerca de 7 anos de idade. Por isso, cresci sem a referência paterna, o que hoje vejo que não foi tão importante assim, já que a minha mãe foi muito mais do que pai e mãe para mim e para os meus irmãos.

Porém, poucos meses antes da minha viagem para cá, resolvi ligar para o meu pai que já vivia nos Estados Unidos há pelo menos dez anos com a sua família, e pedir a ele conselhos e dicas, pois achei importante ouvir alguém que vive no exterior há mais de dez anos.

A resposta foi rápida: – Misture-se no meio dos italianos e fique longe dos brasileiros.

Me recordo que fiquei pasmo com a sua resposta, pois na minha cabeça, em caso de problemas ou dificuldades no exterior, seriam exatamente os meus compatriotas as pessoas com as quais eu poderia contar.

Ele completou dizendo que não podemos generalizar, porém a sua experiência no exterior lhe ensinou que o povo brasileiro é talvez o povo mais desunido no exterior, que ao invés de ajudar os compatriotas, normalmente fazem o contrário – coisa que infelizmente pude constatar mais tarde, na minha própria pele.

Porém, além deste conselho, também me disse algo que eu considero valiosíssimo e que trago comigo até hoje.

Ele me disse que pouquíssimas pessoas tinham o privilégio de conseguir aquilo que eu estava indo fazer na Italia, que era tornar-se cidadão de outro país.

Fabio, isso significa que você não vai ser um brasileiro que emigrou para a Italia, mas sim um italiano que nasceu no exterior e que retornou à sua terra natal.

Me disse também

jamais viva como um estrangeiro e jamais reclame do país que está te dando a possibilidade de ter uma vida melhor. Lembre-se, ninguém lhe obrigou a sair do seu país, portanto seja grato aquele que está te acolhendo, nunca viva em guetos, amontoado com outros brasileiros, falando português e batucando samba. Caso contrário você será mais um dos idiotas que saem do Brasil para buscar uma oportunidade melhor, e ao invés de desfrutar desta oportunidade, preferem falar mal, ou pior, vivem no exterior reclamando que a vida é uma porcaria e que o Brasil sim é que um ótimo país, coisa que se fosse minimamente verdade, estas pessoas não teriam saído de lá, ou então já teriam retornado há muito tempo.

CORAGEM E SUPERAÇÃO

Desde o dia em que ouvi estas palavras, meu pensamento era vir e vencer. Não como brasileiro mas sim como italiano que estava retornando às origens!

Em todos os momentos onde surgiram problemas ao longo desta jornada, eu procurei pensar no meu antenato italiano. Nenhuma das minhas dificuldades ou problemas era páreo ou sequer se aproximava das dificuldades que ele teve que enfrentar.

Eu cheguei aqui de avião, após 11 horas, ele levou semanas dentro dos porões de um navio. Eu sabia o que esperar, ele não. Portanto não, eu não tinha o direito de reclamar ou de abaixar a minha cabeça diante das dificuldades. Eu devia isso ao meu antenato.

Felizmente a coragem e a vontade de vencer me fizeram chegar onde cheguei. Sou cidadão italiano reconhecimento e respeitado na comunidade onde vivo.

A VIDA COMO CIDADÃO ITALIANO, NA ITALIA

Um dos momentos mais felizes aqui aconteceu no dia do primeiro (e horroroso) jogo da seleçao italiana na Copa do Mundo de 2010, na Africa do Sul.

Fizemos um grande almoço, onde estavam presentes na minha casa muitos amigos italianos, entre eles nao poderia deixar de citar:

Lorena – minha mamma aqui na Italia!

 

Ale, mio irmão italiano

 

A família e amigos reunidos em casa

 

Ops, não entendi muito bem essa comemoração do Cleber Arduini na hora do gol da Italia…

 

A NAMORADA E SÓCIA

Até no plano sentimental não poderia imaginar as voltas que a vida daria! Como disse essa semana minha amiga Tati Depieri: – Quem é essa doida que está namorando com você?

Pois é, quem diria que depois de tantas coisas, eu e a Luciana estaríamos aqui juntos, casados e sócios!

Eu e Lu numa das andanças por ai…

SALDO POSITIVO!

saldo positivo

Fazendo as contas desde o dia 13 de junho de 2007, quando desembarquei no aeroporto de Malpensa – em Milano, não tenho dúvidas que o saldo é mais do que positivo!

Relendo o post que escrevi quando completei um ano na Italia vejo que realmente só tenho a agradecer.

Agradecer a Deus por me permitir ter saúde para trabalhar, aos meus pais pelos valores que me ensinaram, às minhas filhas que me motivam a sempre querer o melhor, a minha companheira que me suporta e me dá forças para lutar.

E agradecer especialmente à todos os amigos, leitores, colaboradores e associados que seguem, escrevem, palpitam e fazem deste blog ser o que ele é: uma troca contínua de vibrações e energia positiva.

Parto agora rumo ao quarto, quinto, décimo, aniversário aqui na Italia, com a força e o carinho de todos vocês.

Obrigado, obrigado, muito obrigado!!!