Cada pais tem o Berlusconi que merece – Cesare Battisti

Era dia 2 de janeiro de 2011 e como sempre faço, ligo a TV no canal de noticias da Sky.

Um repórter lia as manchetes dos principais jornais italianos:

Corriere della Sera – Frattini diz “Sobre Battisti a Itália não cederá – estamos prontos para apelar à Corte Internacional em Haia. É um precedente gravíssimo…

La Repubblica – Ministro das Relações Exteriores Frattini escreve à presidente Dilma Rousseff e congela os acordos militares (orçados em mais de 5 bilhões de euros);

La Nazione – Ministro da Defesa La Russia declara: “Em risco as relações comerciais entre Brasil e Itália”.

Il Messaggero – Ministro Frattini escreve à Dilma Rousseff: “reveja a decisão de Lula e envie o assassino de volta à Italia”.

Folha de São Paulo – Itália chama de volta seu embaixador, ato que representa o primeiro sinal de um possivel rompimento diplomàtico entre os dois paises.

O início da delinquência de Cesare Battisi

Cesare Battisti nasceu em 1954 no comune de Sermoneta – província de Lazio a poucos quilômetros da capital Roma.

Depois de abandonar os estudos, foi preso pela primeira vez em 1972 por roubo.

Em 1974 nova prisão: desta vez por sequestro de pessoa e finalmente atingindo a maioridade é preso em Udine por assalto à mão armada.

Nesta prisão descobre a existência de um grupo armado chamado PAC – Proletàrios Armados pelo Comunismo e entra na organização.

Daí em diante só piorou: assaltos e roubos tornaram-se frequentes, pois um dos ideais desta organização era de “tirar dos ricos” para dar aos proletários, porém nunca foi comprovado nenhum tipo de doação ou ajuda aos necessitados seja por Battisti ou qualquer outro membro do PAC.

Cesare Battisti

Cesare Battisti na juventude: preso diversas voltas na adolescência antes mesmo de se tornar “ativista político”

Assassinatos atribuídos a Battisti

6 de junho de 1978 em Udine – um marechal da polícia penitenciária Antonio Santoro é assassinado por Battisti e outro cúmplice que declarou que ele – Battisti – é quem disparou a arma

16 de fevereiro de 1979 em Santa Maria di Sala – Lino Sabbadin, açougueiro depois de reagir ao roubo cometido por Battisti e seus comparsas é brutalmente assassinado por Diego Giacomin.

Battisti dava cobertura no momento do crime.

16 de fevereiro de 1979 em Milano – Pierluigi Torregiani também brutalmente assassinado por ter reagido anteriormente a um assalto numa pizzaria, cometido pelo grupo de Battisti.

Este crime é ainda mais hediondo por dois motivos: o grupo retorna para “acertar contas” com Pierluigi por ter atirado num dos comparsas na tentativa anterior e também porque o grupo atinge o filho de Pierluigi – Alberto, que até hoje vive paralisado numa cadeira de rodas por conta dos disparos.

19 de abril de 1979 em Milano – Segundo testemunhas Battisti atira diversas vezes no agente da DIGOS (Divisão de Inteligência da Polícia) Andrea Campagna que foi um dos responsáveis da investigação do caso de Torregiani.

 

Alberto Torregiani – vitima do assalto da “turma de Battisti”

As condenações de Battisti

Battisti foi condenado a prisão perpétua por estes quatro crimes.

Em 1981 escapa da prisão e foge para a França, vivendo clandestinamente em Paris.

De lá vai ao México e nao apresenta-se às autoridades italianas para o veredito: é julgado e condenado à revelia à prisao perpétua.

Em 2004 é preso em Paris e imediatamente a Itália pede a extradição do criminoso.

Depois de uma verdadeira briga de ferro, é concedida a extradição e ele foge desta vez para o Brasil

No Brasil

Em 2007 Cesare Battisti é preso no Rio de Janeiro através de uma força conjunta entre as polícias brasileira, francesa e italiana e finalmente a Itália vê de perto a possibilidade de extradição do meliante.

O que ninguém esperava é que o então ministro da justiça brasileira – Tarso Genro – num final de semana na praia em janeiro de 2009 decidiu conceder “asilo politico” a Cesare, compreendendo que ele era um fugitivo político do nefasto sistema politico italiano…

No dia 16 de janeiro daquele ano eu escrevi este artigo, onde demonstrei meu descontentamento com o governo brasileiro, pois no meu entendimento um ministro democrático não poderia ir contra a decisão de um órgão formado por especialistas como o CONARE (Conselho Nacional para Refugiados) que tinha rejeitado o status de refugiado politico de Cesare Battisti.

Cesare Battisti

Política externa brasileira

Com esta decisão do presidente Lula de ir novamente contra todos os órgãos brasileiros a favor da decisão de extraditá-lo, o Brasil sbaglia di grosso, já que este não deveria ser um assunto do Brasil.

Não cabe a um homem (ou dois) conceder asilo a um cidadão procurado e condenado em seu país de origem, principalmente quando existem acordos claros de reciprocidade entre os países.

No dia 18 de novembro de 2009 o Superior Tribunal Federal considerou ilegitimo o status de refugiado político e deixou a decisão ao presidente da República brasileira que no seu ùltimo dia de mandato declarou que não liberaria o condenado Cesare Battisti.

Perguntas sem resposta

“Por que o governo brasileiro, primeiro através do ex-ministro da justiça Tarso Genro e depois pelo ex-presidente da República Lula resolveu contrariar tudo e todos e criar artificialmente um status de fugitivo político a uma pessoa condenada em seu país de origem por vários crimes?”

Por que o Brasil, um país que almeja um lugar no cenário externo qualifica a reação italiana como impertinente quando este último declarou como “incompreensível” e “inaceitável” a não extradição?

Minhas Considerações

Eu sinceramente não entendo para qual direção diplomática o Brasil aponta com esta decisão, uma vez que será chamado à Corte Internacional em Haia para explicar o motivo que levou seus líderes a ajudar outro condenado.

Quando eu digo outro condenado, quero lembrar que o Brasil era um dos países preferidos pelos fugitivos apòs a segunda guerra mundial.

Os mais jovens podem não saber, mas uma das piores pessoas que já existiram neste mundo, chamado Josef Mengele e conhecido como o “anjo da morte” já que fazia experimentos terríveis nos campos de concentração nazista – viveu durante 25 anos no Brasil como se nada tivesse acontecido, morrendo de causas naturais numa praia em Bertioga, litoral paulista.

Um país que convive com pessoas que ainda hoje morrem de fome e ao mesmo tempo tem imensas reservas naturais de água e onde tudo se planta se colhe; que mantém uma vergonhosa disparidade entre a camada mais rica e a camada mais pobre da população.

Um país onde as pessoas tiram as vidas uma das outras por causa de coisas fúteis como um tênis, um cinto ou uma bolsa.

Um país que tem uma cultura tão rica e é tão belo que dói merecia realmente governantes mais preocupados em resolver estas mazelas do que perder tempo com os problemas de outros países, de outras nações.

Mas infelizmente é assim: cada um tem o Berlusconi que merece…

Atualização – 2018

Após a vitória, Jair Bolsonaro já disse que fará o possível para extraditar o mais rápido possível o meliante Cesare Battisti para a Itália.

Estamos todos esperando o meliante de algemas abertas pra ele 🙂