Porque todo cuidado é pouco

Ciao a tutti

De tempos em tempos eu recebo mensagens raivosas, de pessoas que me consideram “certinho” demais.

Pode parecer um tanto quanto estranho, mas existe uma parcela de leitores que não concordam em fazer as coisas corretas e ainda tentam me convencer que eu tenho que aceitar documentos ou práticas incorretas.

Eu sempre tive (e ainda tenho) muita dificuldade para entender este tipo de comportamento, pois eu acredito que independente de qualquer situação, quem deveria exigir que as coisas estivessem 100% certas é quem trabalhou pra caramba e no final das contas teve que converter o seu dinheiro de real para euro.

Se eu fosse um cliente, jamais escolheria ou procuraria alguém que tentasse dar um “jeitinho” nos meus documentos ou no meu processo.

Porém infelizmente é inegável que existem muitas pessoas que não pensam como eu, e que preferem “pagar” para que alguém resolva os seus problemas, mesmo sabendo que as coisas serão feitas de forma incorreta.

Pra elas, mesmo que isso signifique prejudicar outras pessoas, não importa, desde que consigam obter aquilo que desejam.

Por que estou dizendo tudo isso?

Porque eu quero compartilhar com vocês 3 situações extremamente desagradáveis que passamos estes dias, demonstrando que todo cuidado é pouco.

Todas estas situações foram causadas por BRASILEIROS que vieram a Italia, fizeram besteira e automaticamente isso reflete em quem – mesmo abominando o famigerado jeitinho brasileiro e tendo saído do Brasil por não compactuar com uma boa parte da população que pensa desta forma, ainda tem que lidar com este tipo de situação.

SITUAÇÃO 1 – OUVINDO COBRAS E LAGARTOS DE UM COMUNE 

Quem tem entrado em contato conosco, muitas vezes tem ouvido que praticamente não temos mais vagas para o ano de 2015 e que estamos procurando novos comunes para expandir a nossa infraestrutura.

Pois bem, nesta semana estivemos em um novo comune, e tão logo nos apresentamos ao oficial di stato civile perguntando a ele sobre o funcionamento do processo de reconhecimento naquele comune, fomos bombardeados de lamentações sobre o péssimo comportamento de brasileiros que passaram por lá e fizeram todo tipo de besteira.

Fomos conduzidos a sala de outro oficial, que nos explicou que devido a uma série de problemas com brasileiros, desde a apresentação de documentos falsos até a falta de respeito com os oficiais, decidiram que agora vão exigir que os requerentes tenham pelo menos SEIS MESES de residência no comune para que eles possam realizar qualquer prática.

Disseram ainda que estão fazendo reuniões com outros comunes para que façam disso um padrão, para evitar que “estes brasileiros” venham pra cá esculhambar com o nosso trabalho.

Saímos de lá atônitos, pois jamais pensei que aqui na Toscana eu ouviria tantas coisas ruins de oficiais sobre o processo de reconhecimento, pois é inegável que todos aqui conhecem a história da emigração italiana.

Porém também é inquestionável que se nos colocarmos no papel de oficial de um comune, as experiências negativas com um determinado “grupo de pessoas” também nos fariam querer evitar a todo custo este tipo de gente.

SITUAÇÃO 2 – FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTO POR PARTE DE UMA GRANDE “EMPRESA DE REDE SOCIAL”

Outra situação absurda que nos aconteceu foi em relação a busca de um documento religioso que fizemos.

Um cliente entrou em contato conosco solicitando a busca de um documento de batismo, no norte da Italia.

Pedi a ele uma cópia do mesmo, que me informou que não tinha a cópia em mãos, porém tinha todos os dados retirados do documento original, que uma prima tinha utilizado no seu processo.

Com estes dados em mãos, fomos até a igreja e com a ajuda do padre, verificamos os livros e nada do registro.

Verificamos cinco anos antes e outros cinco anos depois da data que nos havia sido passada, pois é comum este tipo de erro, porém nada!

Voltamos pra casa e comuniquei o cliente que as informações estavam incorretas.

Ele então conseguiu a cópia do documento e me mandou.

Na hora que recebi o documento já percebi que algo “não enquadrava”, pois não constava o número do registro e nenhum dado referente ao ato.

Questionei imediatamente o cliente, que disse que era o único documento que tinha em mãos e que eu não devia me preocupar, pois a sua prima já havia obtido o reconhecimento da cidadania com aquele documento, e por isso ele tinha certeza que era correto.

Tsc, tsc…

Voltamos com o documento na cúria metropolitana, quando fomos indagados como é que tínhamos aquele documento em mãos, pois ele era falso!

Não existia nenhum registro daquele ato na igreja – porém para nossa sorte – o registro correto foi encontrado em outra igreja.

Imediatamente mostramos ao padre as mensagens trocadas com o cliente, para mostrar a ele que éramos apenas os intermediários e se alguém tinha falsificado o documento, não tínhamos sido nós.

Nem preciso dizer que voltei pra casa com sangue nos olhos, por ter passado por uma situação humilhante como essa, logo eu que sempre fiz tudo de forma correta.

Escrevi ao cliente explicando o que tinha acontecido e informando-o que eu iria denunciar quem tinha feito esta palhaçada!

Fui informado que a sua prima – a mesma que teve o seu processo reconhecido com o documento falso (e que eu não deveria me preocupar) – pagou uma agência famosa nas redes sociais, e que o (ir)responsável pela tal empresa teria dito a ela que na época em que pegou o documento, o padre teria sido grosseiro e que ele tinha sofrido muito para pegar o documento.

E que nem tentassem pedir um novo, pois isso seria impossível!

Antes que alguém ache que vou publicar aqui o nome do cara ou da empresa, não vai acontecer!

Denúncia se faz nos órgãos competentes e não na internet. Já fiz as comunicações necessárias (até porque preciso me tutelar neste caso) e quem vai decidir se o meliante deverá ou não ser responsabilizado serão as autoridades competentes.

Comuniquei também ao cliente que a sua prima fatalmente terá a cidadania cancelada, com as devidas consequências. Algo lamentável…

SITUAÇÃO 3 – CANCELAMENTO DE CIDADANIA DE BRASILEIRO COMO ESTUDO DE CASO

E pra fechar com chave de ouro este artigo, reproduzo abaixo o estudo de caso que recebi ontem por email, da Associação Nacional dos Oficiais de comune, referente ao processo de um cidadão brasileiro.

Logo abaixo da imagem eu explico melhor:

cuidado

Na imagem acima, o especialista em cidadania da associação compartilha COM A COMUNIDADE DE OFICIAIS QUE TRABALHAM COM CIDADANIA ITALIANA, o seguinte caso:

“Um cidadão brasileiro apresenta o pedido de reconhecimento da cidadania jure sanguinis.

O seu antenato nasceu em 1879, teve uma filha em 1910, que por sua vez teve a sua filha em 1935, portanto a cidadania foi interrompida (pela lei materna).

Fui informado do fato que em outro comune, a tia deste meu residente obteve a cidadania há 4 anos atrás com a mesma linha, devo informar aquele comune que foi feito errado?

Resposta: A cidadania não pôde ser transmitida, pois a mulher não transmite a cidadania aos filhos nascidos antes de 1.1.1948 e você deve absolutamente informar aquele comune que efetuou a cidadania de forma incorreta, antes que este fato seja descoberto por outras autoridades”

COMENTÁRIOS

É difícil deixar de fazer qualquer juízo de valor, porém algumas perguntas devem ser feitas:

1 – Como é que com a quantidade de informações atualmente sobre o tema, alguém tenha vindo a Italia sem saber que a sua cidadania é materna e portanto não tem direito ao reconhecimento?

2 – Provavelmente quando o requerente descobriu (ou já sabia?) que não tinha direito, quis justificar dizendo que uma tia já tinha feito o processo e deu o nome do outro comune, achando que isso a salvaria.

Agora ambas as cidadanias serão canceladas e com certeza o oficial que efetuou o processo há 4 anos atrás ficará tão desesperado que provavelmente nunca mais vai querer fazer um outro processo de cidadania novamente.

Isso me lembrou de um cliente que veio realizar o processo comigo em 2009, quando ainda aceitávamos a utilização da documentação de outros comunes.

Quando pedimos a documentação do primo que tinha feito a cidadania em um comune da região de Verona, descobrimos que este primo simplesmente não tinha apresentado a certidão de nascimento do italiano!

Na pasta dele naquele comune este documento não existia. Posteriormente soubemos que este primo era jogador de futebol e não vou nem continuar a frase, pois todos já entenderam…

Infelizmente perdemos mais de um mês caçando a certidão deste cliente e felizmente ela existia e fizemos o processo normalmente.

Mas e se o documento não existisse?

E se fosse falso?

Foi quando decidi que jamais iria aceitar clientes que quisessem aproveitar a documentação previamente apresentada em outro comune por um familiar, pois eu não teria como analisar e comprovar a veracidade destes documentos.

Mesmo que isso custasse perder este cliente.

De fato isso realmente aconteceu e “perdemos” muitos destes clientes, só que a sensação de poder deitar a cabeça no travesseiro e ter uma boa noite de sono sem se preocupar com eventuais problemas superou, e muito tais perdas.

REPERCUSSÃO?

Vocês não tem ideia da repercussão negativa que este tipo de situação pode ter entre os oficiais, pois se já é injustificável que um cidadão venha a Italia com os documentos incorretos, vir sem ter direito é ainda pior!

Claro que o que aconteceu no primeiro caso que relatei já é um tipo de retaliação por parte dos órgãos públicos.

Sobre o segundo caso, o padre nos disse que a partir de agora não vai mais emitir documentos sem a autorização da cúria.

Ou seja, você, cidadão honesto que está atrás do seu sonho, pode nunca receber a resposta do pedido de um documento aqui na Italia porque no passado um vagabundo que nasceu no mesmo país que você recebeu falsificar um documento pra ganhar a miséria de 400 euros…

Ou você poderá ficar mofando aqui na Italia em um comune que tenha tido uma experiência péssima com outro brasileiro, mesmo que você tenha perdido um tempo considerável no Brasil corrigindo seus documentos e seguindo todas as regras corretamente.

Achei conveniente vir aqui compartilhar estes casos com vocês, para que tomem muito cuidado com quem contrata e também muito cuidado com as suas ações em relação ao seu processo.

Aliás, há um ano eu escrevia algo parecido no artigo Porque vir a Italia fazer besteira, onde eu descrevia outras situações não menos absurdas que estas.

O reconhecimento da cidadania não é só presente, mas também futuro e mesmo que alguém ache (como a tia do rapaz ou a prima do cliente) que uma vez obtido o reconhecimento nada mais pode acontecer, se as coisas foram feitas de forma incorreta, pode passar o tempo que for, mas um dia alguém vai descobrir e a cidadania será cancelada!

E sim, vou continuar sendo “certinho” pois faz parte da minha índole e do meu caráter. Prefiro pecar pelo excesso do que pela falta.

Quem não concordar com isso, faça como minha sábia mãe já dizia: – A porta da rua é a serventia da casa…

Abbracci a tutti e até o próximo post!