Emprego na Italia – Conceitos

Há algum tempo criei aqui no blog a sessão Emprego na Italia – já que é um assunto bastante complicado e extenso, pois quando falamos nisso uma série de perguntas surgem automaticamente:

  • Podemos trabalhar enquanto realizamos o processo de cidadania?
  • Quais são os documentos necessários para trabalhar na Italia?
  • Onde procurar emprego? No Brasil temos as agências, e aí? Como é o curriculum?

Vamos primeiro entender alguns conceitos sobre o trabalho aqui na Italia e principalmente descobrir quais as diferenças que existem em relação ao Brasil.

Quero começar já deixando algo muito bem claro:

NÃO, NÃO PODEMOS TRABALHAR DURANTE O PROCESSO DE CIDADANIA ITALIANA!

Existem vários motivos pelos quais não podemos trabalhar durante o nosso processo, sendo o primeiro muito simples: quando chegamos aqui na Italia para realizarmos o nosso processo, não precisamos de nenhum tipo de visto de ingresso.

Isso para o nosso processo é ótimo, porém para trabalhar é péssimo, pois sem um permesso di soggiorno (visto de permanência italiano) válido, nenhuma empresa pode nos contratar!

Além disso, existe um comunicado oficial do governo italiano que diz que mesmo aqueles que tem o permesso di soggiorno in attesa di cittadinanza (que é o permesso que podemos solicitar caso o nosso processo ultrapasse 90 dias) não podem trabalhar.

Portanto este artigo não é para quem ainda não é cidadão italiano ou quem chega aqui na Italia sem um visto de trabalho já colado no passaporte.

ENTENDENDO O MERCADO DE TRABALHO ITALIANO

Emprego Italia

O primeiro passo para procurar emprego não só aqui na Italia mas em qualquer país que não é aquele onde nascemos é entender como funcionam as coisas naquele país, ou seja conhecer as diferenças culturais.

Por exemplo, aqui neste artigo vocês podem saber um pouco mais como pensa um cidadão italiano que viveu durante um tempo no Brasil e contou pra mim o que ele pensa sobre as amizades no Brasil e também sobre o sorriso fácil do brasileiro.

Outra coisa que é muito fácil perceber aqui na Italia, é que a forma como os italianos encaram o emprego é completamente diferente da forma que um brasileiro enxerga: aqui trabalha-se para viver, enquanto no Brasil a maioria das pessoas vive para trabalhar.

Vejam que parece apenas um trocadilho (horrível) ou frase de auto-ajuda mas confesso que é a mais pura realidade aqui na Italia.

Quando eu conheço um brasileiro por aqui que trabalha em uma fábrica ou em outra atividade com outros italianos, uma das primeiras coisas que ele diz é algo do tipo “como estes italianos são preguiçosos, você acredita que basta o relógio bater 18:00 horas eles páram tudo e vão embora?“.

Já ouvi esta mesma frase de clientes que vivem na Inglaterra, na Irlanda, na França, na Espanha, até mesmo na Dinamarca e a pergunta que temos que fazer é:

– Será que todos estes cidadãos europeus que vivem no 1º mundo são tão vagabundos assim?

Minha opinião é que não, conhecendo um bocado deles, posso dizer que eles fazem isso porque consideram que tão importante quando trabalhar também é curtir a vida, a família, os amigos.

Trocando em miúdos – eles trabalham para viver, não vivem para trabalhar!

Podemos até não concordar com este ritmo lento, mas é aí que entra o que expliquei no item anterior: se quiser viver aqui tem que saber entender e respeitar as diferenças culturais.

Vejam que a nossa visão brasileira de que time is money (americanização extrema!) está diretamente ligada ao poder compulsivo que temos para conseguir construir a nossa independência financeira.

Porém já paramos para pensar no que isso significa?

Ter um carro zero que custa milhares de reais é realmente necessário?

Uma casa com 200 m2 com piscina, jardim e varanda é realmente necessário?

Ter 5 carros na garagem, um para cada membro da família é realmente necessário? (ok, aqui talvez até seja, sabendo das péssimas ou inexistentes opções de transporte público no Brasil).

Este é o problema que enfrentamos no Brasil: como as coisas são muito caras, temos que passar a vida trabalhando que nem loucos para poder ter mínimos prazeres, como curtir uma praia num feriado prolongado – depois de dez horas de congestionamento, pagando pelo aluguel de alguns dias no imóvel mais do que custaria uma viagem ao exterior com a família…

E não pensem que quando adquirimos uma certa tranquilidade financeira isso muda, pelo contrário – quanto mais dinheiro temos, nossa preocupação com a segurança também aumenta, o que se traduz em mais custos e despesas.

Vocês devem estar perguntando porque raios eu comecei um artigo sobre emprego falando das diferenças culturais, certo?

A resposta é a seguinte: quem pensa em vir a Italia com o mesmo pensamento que tem no Brasil, vai dar com os burros n’água!

Quem ganha 5000 reais no Brasil não precisa ganhar 5000 euros para ter o mesmo padrão de vida aqui na Italia!

É fundamental dar uma espécie de reset no cérebro quando chegar aqui, mergulhando de cabeça na forma de vida do cidadão italiano, só assim vocês vão conseguir entender o que é preciso e então saber o que buscar.

MEU PRÓPRIO EXEMPLO – QUANDO CHEGUEI NA ITALIA

Eu vim à Italia com um único objetivo: dar um futuro melhor pras minhas filhas!

Minha idéia principal era obter o reconhecimento da minha cidadania, pois sabia que ela abriria as portas para um bocado de coisas, incluindo conseguir um bom emprego por aqui.

A primeira coisa que fiz, ainda no Brasil, foi começar a estudar italiano.

Ao chegar aqui, me lembro de bombardear as pessoas que eu conhecia com perguntas sobre o mercado de trabalho, modelo de curriculum, quais profissões estavam em alta, entre outras coisas relacionadas a este assunto.

Vejam que em nenhum momento pensei em fazer aqui o que eu fazia no Brasil, pois eu não falava italiano direito – portanto sabia que minhas oportunidades seriam proporcionais ao meu nível de conhecimento da língua italiana.

A primeira coisa que eu fiz foi procurar informações sobre o mercado de trabalho italiano e como os cidadãos italianos procuram emprego.

REDE DE RELACIONAMENTOS – CIDADÃO ITALIANO X CIDADÃO BRASILEIRO

Não demorou muito para que eu pudesse descobrir algo extremamente útil e que mudaria radicalmente a forma de visualizar as coisas por aqui: eu teria que criar uma rede de relacionamentos com cidadãos italianos e não com brasileiros!

Por que?

Porquê a maioria dos brasileiros que eu conheci já saíram do Brasil sem nenhuma qualificação profissional e chegando aqui trabalhavam em sub-empregos.

Ou seja: nenhum deles sabia sequer como era o mercado de trabalho na Italia, sem contar que a maioria que conheci e que vivia por aqui há dez, quinze anos mal sabiam falar a língua italiana…

Sem contar que eu sofri preconceito… por parte dos brasileiros!

Alguns deles, ao me ver falar a língua italiana, diziam:

– Fabio, por que você está forçando o sotaque para falar igual aos italianos?

– Oi? Como assim falar igual aos italianos? O que isso quer dizer? 

– Oras Fabio, você não precisa falar igual a eles! Eu mesmo moro aqui há quinze anos e mesmo com meu jeito de falar, todos me entendem e eu entendo todo mundo.

Veja o quão absurdo é este pensamento e que infelizmente me foi dito não apenas por um, mas sim por várias pessoas: eles acreditavam que eu não tinha que falar italiano igual “a eles”.

Ou seja, o próprio brasileiro – mesmo com a cidadania italiana reconhecida – se comporta como estrangeiro, achando que existem “nós” e “eles”.

Claro que este tipo de comportamento não ajuda a se integrar com a sociedade, afinal de contas, se “eles” são italianos, quem somos “nós”?

ENCONTRANDO AS PRIMEIRAS OPORTUNIDADES

No Brasil eu tinha sido professor de informática por mais de dez anos, além de gerenciar uma grande empresa do setor de ensino profissionalizante e até por isso procurei informações dentro desta minha área.

Foi quando descobri que os italianos não sabem fazer manutenção em seus computadores, notebooks, celulares, etc.

E foi assim que comecei a ganhar meus primeiros trocados: instalando software, fazendo manutenção, ajudando a utilizar o Skype (sim, muitos naquela época ainda não sabiam usar) e geralmente eu ganhava 50 euros por uma ou duas horas prestando este tipo consultoria.

SITUAÇÃO CURIOSA COM A POLÍCIA

Uma vez fui parado pela polícia (acontecia muito naquela época, antes de ter o reconhecimento da minha cidadania italiana rs) e quando o oficial perguntou o que eu fazia, disse que era tecnico informatico.

Na mesma hora ele, que estava com meus documentos em mãos efetuando todos os controles possíveis e imagináveis, parou o que estava fazendo e me perguntou se eu poderia consertar seu notebook, pois estava esquentando sem motivos.

Percebeu o jogo?

Eu já sabia como era o termo correto na língua italiana sobre a minha profissão aqui na Italia e isso me ajudou a fazer com que as portas se abrissem!

A partir disso, a cada italiano que eu prestava consultoria ou efetuava manutenção em seus computadores, apareciam outros que ficaram sabendo por este italiano e a rede foi aumentando – tanto que me fez pensar em abrir um negócio de montagem e manutenção de computadores.

E eu só não fiz isso – embora cheguei até a ver alguns pontos comerciais – porque eu não tinha ainda a minha cidadania italiana reconhecida e consequentemente não podia trabalhar e/ou abrir qualquer tipo de empresa aqui, pois eu não tinha documentos para isso!

A propósito: nesta mesma época eu encontrava brasileiros que não encontravam emprego e reclamavam da crise.

Será que o problema era a crise, ou a falta de qualificação destas pessoas?

CONCLUSÃO

Muito bem, a partir deste artigo já podemos começar a anotar algumas coisas importantes:

1 – Só podemos trabalhar com um visto específico que permita a atividade, ou então com a cidadania italiana reconhecida;

2 – Não adianta chegar aqui na Italia com a “cabeça de brasileiro” para procurar emprego; será necessário aprender tudo sobre como os italianos se relacionam com o mercado de trabalho, quais as formas que eles utilizam para encontrar emprego e tudo mais relacionado;

3 – Suas oportunidades serão proporcionais ao nível de conhecimento na língua italiana que você tiver, portanto estude, estude e estude!

4 – Em qualquer lugar do mundo, a forma mais fácil de conseguir um emprego é por indicação de amigos.

Isso significa que as chances de conseguir um bom emprego aumentará se você se integrar com a cultura italiana, tiver amigos italianos e procurar se envolver em atividades com as pessoas locais.

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Para acompanhar os demais artigos da série Emprego da Itália é só clicar aqui.

Um forte abraço e até em breve