Terremoto em Abruzzo – 7 anos depois

Eram 3:32 da madrugada do dia 6 de abril de 2009 na cidade de l’Aquila, na província de Abruzzo – região central da Italia quando um maldito terremoto de quase 6 graus da escala Richter acabava com 308 vidas.

Exatamente hoje, sete anos depois daquele fatídico dia, as lembranças daquilo que parecia ser uma zona de guerra ainda ecoam na minha cabeça.

Provavelmente muitos de vocês não sabem, mas três dias depois do terremoto, após ser contatado pela equipe editorial do Fantástico, da Rede Globo, fui até l’Aquila ver de perto o que tinha acontecido, vejam aqui o post que eu escrevi naquele momento.

Tudo aquilo era tão absurdo, que parecia surreal.

É verdade que ouvimos falar de tragédias o tempo todo: de tsunamis a terremotos, passando pelas informações de guerra, enchentes, deslizamentos e outras desgraças, mas acreditem, presenciar isso não é nada parecido do que aquilo que assistimos na televisão.

Ver pessoas desesperadas, chorando a perda dos seus entes, ver casas e prédios destruídos, ver bombeiros correndo de um lado a outro com a esperança de ainda encontrar sobreviventes no meio dos escombros é algo que nos marca pro resto das nossas vidas.

Eu me lembro que em 2010, pouco mais de um ano depois da tragédia, precisei fazer o exame médico para tirar minha carta de motorista italiana.

Durante a conversa com o doutor, chegamos ao assunto do terremoto, quando eu lhe disse que tinha ido até l’Aquila e ele então me confessou que tinha sido voluntário durante alguns dias por lá. E juntos, ao lembrarmos daquilo tudo, choramos.

Choramos os mortos, mas também choramos por aqueles que sobreviveram e que perderam os seus filhos, os seus pais, os seus amigos.

Choramos pelos quase 50.000 desabrigados, mas também choramos de orgulho, ao saber da mobilização de milhares de pessoas que naquele momento encheram os hospitais com suas doações de sangue, que foram pessoalmente pra lá ajudar na tendópolis, no apoio as famílias, na organização social, etc.

Hoje, depois de sete anos, ainda é muito difícil tocar no assunto. É simplesmente uma dor que não passa – e que provavelmente jamais passará.

Quantas vezes respondendo aos clientes sobre o assunto, não contive as lágrimas.

Como aconteceu quando a Luciana, sem ter idéia sobre como aquilo me afetou, me perguntou os detalhes daquele momento e não consegui terminar de respondê-la.

Da mesma forma que, enquanto escrevo este texto, as lágrimas escorrem abundantes, já que tive que rever várias fotos e também os vídeos que eu fiz – revivendo de alguma forma tudo que aconteceu.

Falando em fotos, confesso que não foram muitas que eu fiz quando estive lá, não porque eu não queria, mas simplesmente porque não havia clima.

Hoje tenho um enorme respeito aos fotógrafos que cobrem este tipo de situação, pois estar diante de uma desgraça, com a boca aberta, com os olhos cheios de lágrima e ainda ter força para fotografar é algo muito difícil.

Para que vocês entendam os sentimentos, ao chegar na cidade de l’Aquila, o sentimento era de confusão: tinha muita gente passando pra lá e pra cá, algumas casas com rachaduras evidentes, mas não dava pra entrar na zona proibida.

Depois, conversando com um vigile, perguntei a ele onde eu poderia fazer algumas fotos e ele me sugeriu que eu fosse até o bairro de Onna, que tinha sido completamente destruído, por ter sido o epicentro do terremoto – neste momento o sentimento era de excitação, de euforia, pois estaria prestes a conhecer algo que eu jamais tinha visto, pelo menos pessoalmente.

Chegando em Onna, a primeira coisa que eu vi foi isso:

Uma enorme rachadura que atravessava a estrada e continuava pelos campos. E até aqui o sentimento era de excitação, pois ainda não tinha caído a ficha do que estava por vir.

Quando então caminhando mais algumas dezenas de metros, o sentimento passou a ser descrédito: não acreditava no que eu estava vendo:

Do outro lado da rua, vimos isso:

terremoto em Abruzzo

Daí então, os sentimentos todos se misturaram, num misto de incredulidade, tristeza e horror, quando chegamos no local onde anteriormente era a praça principal daquela pequena fração:

Naquele momento eu me dei conta da realidade, e todos os sentimentos anteriores se transformaram num vazio tão grande, que sinceramente não sei explicar.

Era um misto de dor e tristeza misturada com raiva e indignação.

Depois do choque, reparei que nessa primeira casa, onde apenas uma parede permaneceu de pé, dava pra ver três pequenas imagens:

E foi então que eu me abaixei e rezei. Pedi a Deus que confortasse todos aqueles que perderam seus entes queridos, e que acolhesse todos aqueles que partiram.

Poucos meses depois, vários cantores italianos se reuniram e gravaram juntos a música Domani, cuja renda todal da venda foi destinada aos desabrigados e que termino este artigo com ela, para que não nos esqueçamos que a vida deve ser vivida plenamente a cada dia, sem deixar para depois aquilo que podemos fazer agora.