Péssimos comunes para a prática da cidadania italiana

Há algum tempo escrevi o artigo “Cidadania Italiana em Verona – no qual eu relatava as dificuldades da realização do processo de cidadania naquele comune.

Compartilhei a saga do Leandro depois do absurdo racismo que sofreu em Bergamo.

E contei aqui também a história e os problemas que o Breno enfrentou na Calábria.

Mesmo depois de tantas histórias e tantos testemunhos, percebo que muitas pessoas ainda continuam escolhendo péssimos comunes para a prática de reconhecimento.

PÉSSIMOS COMUNES PARA A PRÁTICA DA CIDADANIA ITALIANA

Resolvi então reescrever este artigo – originalmente escrito em 2011 – pois sei que a escolha do comune é um dos fatores fundamentais para que o processo de cidadania na Itália seja concluído com sucesso!

Frequentemente recebo pedido de ajuda de pessoas que já estão na Itália e que – conscientemente ou não – foram parar em péssimos comunes.

O que também me deixa preocupado é a frequência de outros pedidos de orientação de pessoas que estão pensando em cometer os mesmos erros e ir a estes comunes.

Estas pessoas têm a ideia de que ter um amigo e/ou familiar vivendo aqui na Italia – mesmo que num péssimo comune – ainda é uma ótima escolha.

Vejamos alguns exemplos reais que eu separei para você:

1ª História – Dois irmãos num pequeno comune próximo a Milano

Há alguns anos recebemos um pedido de ajuda de dois irmãos mineiros que estavam tendo dificuldades em seus processos num comune próximo a Milano.

Eles vieram à Itália, permaneceram aqui por poucos dias e em seguida retornaram ao Brasil.

Nos disseram que pagaram  um “profissional” que, no meio do processo desistiu do trabalho e voltou ao Brasil, deixando-os literalmente na mão.

Quando eles me contataram, o processo já estava parado há 18 meses (sim, você leu meses, e não semanas…)

Como estávamos indo ao norte para realizar a busca de alguns documentos, decidimos prestar uma consultoria específica para tentar resolver este problema.

Fomos pessoalmente até o comune para obter informações sobre o status do processo e ver se seria possível resolver os problemas.

A resposta que recebemos da oficial foi que ela não tinham pressa nenhuma para terminar o processo, pois o comune soube que eles abandonaram o país e por isso a residência deles estava cancelada.

Disse ainda que eles deveriam retornar ao comune para retirar os documentos, ou então efetuar todos os procedimentos novamente, pois “abandonar a cidade no meio do processo era uma tremenda falta de respeito com os funcionários” (palavras da oficial).

2ª História – Marido na Lombardia

Outro e-mail, desta vez de uma leitora do blog, explicando que o marido tinha um amigo que o “ajudaria” na região de Milão e que seu marido tinha acabado de chegar na Itália.

No mesmo e-mail, ela pedia a minha sincera opinião sobre isso.

Minha resposta foi:

“aquela região é realmente complicada e é possível que demore bastante, ele já deu entrada na residência e já está esperando o vigile? Se ainda não fez isso, fale pra ele sair imediatamente de Milano e procurar outro comune”

A resposta dela foi a seguinte:

Ele ainda não solicitou a residência, pois acabou de chegar.  

Porém eu já tinha ouvido em vários lugares que Milano não era um bom lugar, inclusive no blog Minha Saga”.

Neste momento você está pensando:

– Ufa, ainda bem que deu tempo do Fabio avisá-los e então o marido mudou de comune!

Infelizmente eles não fizeram isso…

Passados alguns dias, a resposta que recebi foi a seguinte:

– Decidimos realizar là mesmo, agora vamos torcer para que seja rápido, informaram que o vigile comparece dentro de 30 dias.

Quer saber o resultado desta história?

Somente no dia 27 de setembro (QUATRO MESES DEPOIS) a residência do marido foi confirmada (o comune alegou vários problemas no imóvel, e fez de tudo para atrasar o processo!) e só depois desta confirmação, é que o marido conseguiu protocolar os documentos para a realização do processo.

E pior: após protocolar os documentos, o comune enviou a documentação para uma eventual verificação da veracidade deles em Roma (isso não existe!).

A última notícia que recebi do casal, já tinha passado seis meses da chegada do rapaz na Itália, e a non rinuncia sequer tinha sido pedida para o consulado de SP.

3ª História – Processo na região de Marche

Outro exemplo que acompanhei foi de uma leitora que chegou em setembro de 2010, e somente em outubro de 2011 ela foi reconhecida cidadã italiana.

Foram várias desculpas que o comune deu para atrasar o processo: ora faltava tempo – ora era um problema com as eleições, depois era o Ferragosto, depois férias dos funcionários, depois tinha uma fila de outros processos na frente, entre tantas outras desculpas esfarrapadas.

Claro que dentro de um órgão público, vários problemas podem acontecer e o processo pode demorar mais ou menos por causa disso.

Só que no caso dela, o processo demorou mais de um ano – isso quer dizer que todos os problemas do mundo parecem ter acontecido naquele comune, durante o processo dela…

4ª História – Sofrimento familiar em Vicenza

Também pude acompanhar o sofrimento de um pai e um filho que obtiveram depois de longos meses o reconhecimento na cidade de Vicenza.

Aliás, no e-mail que eles me enviaram, eles me pedem para avistar a todos os leitores deste humilde blog para não ir aquele comune!

Segundo as palavras deles, realizar o processo por lá é muito sofrimento, muito descaso e muito racismo da parte dos funcionários públicos daquela cidade.

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS

Em 2008 tudo deu errado no meu processo…

Eu fui enganado por uma brasileira, famosa e respeitada em grupos e páginas nas redes sociais.

Ela fez de tudo para atrapalhar o meu sonho, e sabe o que eu fiz?

Arregacei as mangas e fui atrás do meu sonho (leia aqui mais detalhes).

Tive que tomar uma baita decisão: sair do comune onde ela “estava me ajudando” e recomeçar do zero em um novo comune.

E no final, no dia 24 de dezembro de 2007 eu me tornava cidadão italiano reconhecido (leia aqui o meu relato).

Infelizmente já ouvi várias vezes a frase:

Ahhh mas quando eu estiver na Itália eu dou um jeito… Com sorte tudo vai dar certo!

NÃO CONTE COM A SORTE, PLANEJE-SE!

No mundo de hoje, com a quantidade de informações que podem ser facilmente obtidas na própria internet, não podemos nos dar ao luxo de colocar nossos sonhos e muitas vezes nosso futuro nas mãos da “sorte“.

Encontrei uma frase que é atribuída ao ex-técnico de vôlei Bernardinho que diz o seguinte:

É importante ter metas, mas também é fundamental planejar cuidadosamente cada passo para atingi-las”

Encare o seu processo de reconhecimento como qualquer outro projeto importante na sua vida.

Aliás, encare-o como o projeto mais importante da sua vida, pois este reconhecimento pode mudar completamente não apenas a sua própria vida, mas também a vida das pessoas que você ama!

Acredite, isso mudou a minha, assim como mudou a vida de outras milhares de pessoas.

Hoje é fácil saber se uma pessoa é correta ou não, se um comune é bom ou não, se os documentos estão prontos para serem utilizados ou não.

Bastam três coisas:

  • Coragem
  • Planejamento
  • Perseverança

Fazer o processo de cidadania é fácil?

Claro que não!

Aliás, tem uma frase que eu adoro:

– Se fosse fácil, todo mundo fazia!

Toda vez que algo parece complicado pra mim, eu penso: “Se fosse fácil, todo mundo fazia” – e me lembro de tantos outros projetos que enfrentei e que não foram fáceis.

Mas no final de cada um destes projetos, pude sentir o gosto especial de superá-los e então perceber que tive a força e a coragem em realizar coisas que nem todo mundo é capaz – ou tem coragem – de fazer.

DICAS ÚTEIS PARA TE AJUDAR A ENCONTRAR UM BOM COMUNE

Por isso, quero que você pense com cuidado sobre o comune que vai escolher para realizar o seu processo.

Comece por eliminação!

Utilize o Google, as redes sociais, blogs e sites para procurar sobre aquele comune que você julga ser interessante.

E caso leia qualquer coisa contra ele, apenas elimine-o da sua lista!

Veja a foto abaixo:

Péssimos comunes para a prática da cidadania italiana

Esta foto é do livro de italiano que eu trouxe comigo para a Itália.

Na página à esquerda, você pode ver que algumas províncias estão marcadas em rosa.

Pois bem, quando eu comecei o meu planejamento, lá em 2006, eu fiz exatamente o que estou propondo a você: comecei a eliminar qualquer lugar que eu tinha ouvido ou lido algum relato ruim.

Claro que naquela época, as informações eram pouquíssimas, mas ainda assim eu consegui encontrar dicas valiosas na internet.

Naquela época, eu excluí as regiões da Calábria, Emilia-Romagna, Lazio, Lombardia, Umbria e Veneto.

Hoje, eu incluiria na minha lista de exclusões as regiões Abruzzo, Marche (que foi a minha escolhida e quebrei a cara!), Toscana, Sicília e Campania.

Sobrariam ainda as seguintes regiões:

  • Valle d’Aosta, Basilicata, Friuli Venezia Giulia, Liguria, Molise, Piemonte, Puglia, Sardegna e Trentino Alto Adige.

E se, de repente, você está pensando: – Caramba Fabio, sobram apenas 9 regiões que você faria o seu processo? Não são poucos comunes?

Claro que não!

Nestas regiões acima, existem nada menos que 2922 cidades, veja os números abaixo:

  • Valle d’Aosta = 74 comunes
  • Basilicata = 131 comunes
  • Friuli = 216 comunes
  • Liguria = 235 comunes
  • Molise = 136 comunes
  • Piemonte = 1202 comunes
  • Puglia = 258 comunes
  • Sardegna = 377 comunes
  • Trentino = 293 comunes

Viu só?

Se considerarmos apenas as regiões acima, temos duas mil novecentas e vinte e duas opções de cidade para realizarmos a prática de reconhecimento.

PORÉM, CALMA!

Não vai sair deste artigo escolhendo qualquer comune de uma das regiões acima, apenas porque eu as citei aqui, sem nenhum tipo de consulta ou planejamento.

Não estou de forma alguma dizendo que todos os comunes que existem nestas regiões são maravilhosos e abertos para a prática!

Estou apenas dizendo que se eu tivesse que escolher um comune para realizar o meu processo, com a experiência que eu tenho hoje, começaria a minha escolha a partir desta lista.

Da mesma forma que também não estou dizendo que não existam bons comunes em outras regiões.

CONCLUSÃO

Neste artigo eu te compartilhei contigo quatro histórias reais, de leitores que passaram por maus bocados, por terem escolhidos péssimos comunes.

Te expliquei também que não deve contar com a sorte!

Anote aí: a palavra-chave do sucesso do seu processo de reconhecimento é PLANEJAMENTO!

Seja aqui no blog, seja no canal do Youtube, na Escola da Cidadania Italiana, no Guia Prático da Vida na Itália, no Curso de Formação Profissional na Busca dos Documentos, no Sagabook, na Planilha Financeira de Custos da Cidadania ou em qualquer outro local / projeto que eu criei, você encontra tudo que precisa para realizar este sonho.

Isso porque estou citando apenas os materiais que eu criei.

Existem outros milhares de sites, blogs, canais e ferramentas online que também pode te ajudar a não cair em enrascadas, quando o assunto é cidadania italiana.

Com tanta informação disponível (quem me dera ter tido acesso a tantos materiais em 2007…) é fácil se planejar.

Por fim, quero deixar claro que o objetivo deste artigo não é julgar ou criticar ninguém que escolheu um comune péssimo, seja sabendo disso ou não.

O meu objetivo ao compartilhar histórias como estas, reais, é explicar a quem ainda não veio à Itália, que é perfeitamente possível evitar cair em péssimos comunes.

Por isso, comece agora mesmo o planejamento do reconhecimento da sua cidadania italiana.

Tenho certeza que em pouco tempo, terei o prazer de ler aqui o seu comentário, compartilhando comigo que você é mais um cidadão italiano reconhecido!

In bocca al lupo!